Entenda sobre o Budismo Tailandês

Para àqueles que chegam aqui pela primeira vez, resido na Tailândia desde 2014, sou mestre em Filosofia e Religião pela Assumption University em Bangkok e especialista em cultura e tradição tailandesa.
Neste artigo abordo sobre o Budismo Tailandês, um tema que confunde muitos turistas que visitam a Tailândia, passam alguns dias e vão embora sem entender a verdadeira particularidade do Budismo praticado por aqui. Alguns chegam a compartilhar suas próprias perspectivas, gerando total confusão para aqueles que nunca experenciaram a Tailândia. Portanto, baseado em estudo acadêmico filosófico, vou ajudá-los a desvendar as crenças tailandesas.


Como me dedico meu estudos acadêmicos ao entendimento da tradição Tailandesa, espero que com este post, eu possa abrir as portas para o entendimento do mundo tailandês para aqueles que falam a língua portuguesa, pois informações seguras, em português, sobre a Tailândia, são raras. E as existentes, são de fontes duvidosas.

Percebam que o título do blog é “Budismo Tailandês”, portanto, irei falar e abordar especificamente deste tipo de Budismo. É importante frisar que existem diversas ramificações do Budismo. Assim como o Cristianismo que é ‘ramificado’ entre o Catolicismo e Protestantismo, o Budismo, em modo geral, também tem sua ramificação, e abaixo cito quatro dos mais conhecidos no mundo:

  • Budismo Theravada: encontrado no Sri Lanka e Sudoeste Asiático
  • Budismo Mahayana: China e Japão
  • Budismo Tibetano: Tibet, Nepal
  • Zen Budismo: China

No Brasil, o mais comum, e conhecido é o Budismo Mahayana.
O Budismo praticado na Tailândia, é o Budismo Theravada, porém é um Budismo um pouco diferente do praticado no Sri Lanka ou em Myanmar por exemplo, e por isso, o chamo aqui de ‘Budismo Tailandês’.
Agora vamos entender porque o Budismo Tailandês é tão particular e característico.

O Budismo Tailandês combina três tipos de filosofia:

Theravada + Hinduísmo + Animismo

Budismo Theravada: Segue os princípios e ensinamentos originais de Buda, inclusive a língua que Buda, o próprio, falava: Pali. Ainda que Pali seja uma língua-morta, ela permanece ‘viva’ entre os Budistas Theravada. Como é ausente de alfabeto, é adaptada à língua nativa do país onde o Budismo é praticado. No caso da Tailândia, usa-se o alfabeto Tailandês para as escrituras Budistas. No Budismo Mahayana, por exemplo, as escrituras budistas são encontradas em Sânscrito. No Budismo Theravada, suttas se referem aos ensinamentos de Buda, enquanto que no Mahayana é dito sutras. Buda quando alcançou a iluminação, alcançou Nibbana (em Pali), enquanto que em Sânscrito é dito Nirvana. Diz-se que o Budismo Theravada é mais fiel aos princípios originais de Buda do que o Mahayana, pois o Mahayana sofreu influências de filosofias já existentes na China, como o Taoismo. O Theravada é mais conservativo, e restrito, do que o Mahayana. Diferenciar o Budismo Theravada do Mahayana exige um artigo somente para este assunto, portanto, encerrarei as diferenciações por aqui.

House spirit

Tailandesa orando para um deus Hindu

Hinduísmo: Por ser localizada numa região central do Sudoeste Asiático, sendo caminho e ponto de parada de descanso de peregrinos que vinham da Índia, a Tailândia recebeu fortes influências do Hinduísmo. É importante dizer aqui, que quando me refiro ao ‘Hinduísmo’, me refiro à toda filosofia Hindu, que inclui o Bramanismo e o Vedismo, duas filosofias que para alguns escritores são distintas, porém, por uma análise mais filosófica e profunda, os três, na verdade, são uma coisa só: Hindu. Devido ao alto número de peregrinos e mercadores vindos Índia, os reis do antigo Sião (nome antigo da Tailândia), passaram a considerar importante seguir as tradições Hindus, como haver um conselheiro brâmane e realizar cerimônias importantes, como de coroação, por intermédio de um brâmane. Estamos falando aqui de acontecimentos que ocorreram entre I e III século d.C., ou seja, são influências muito antigas, que se enraizaram no território Tailandês de tal forma, que passou a ter uma identidade própria: a Tailandesa.

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Uma casa de espírito em frente à um tronco de árvore envolto por tecidos que foram abençoados por monges. Percebam as Fantas vermelhas.

Animismo: Ainda que eu não goste desse termo criado pelo antropólogo Edward Burnett Tylor, o qual explica ser uma crença primitiva que dá vida à objetos inanimados como plantas, água, terra, ar, sol, pedras e assim por diante…, eu prefiro nomear o ‘animismo’ como ‘tradição indígena’, ou seja, a tradição do povo nativo Tailandês. Assim como no Brasil, e muitos países do mundo, o povoado indígena acredita na harmonia entre homem e natureza, havendo respeito mútuo para com todos os seres vivos e não-vivos, mas os quais possuem força e energia vital. A água, ainda que ‘inanimada’, tem energia e vida, pois é capaz de nutrir; O sol, ainda que é ‘inanimado’, é pura energia, dá a luz e nutri vidas; As árvores, ainda que sejam plantas, tem energia, pois com seus frutos e seiva, nutrem seres vivos… Portanto, baseado neste pensamento, o Budismo Tailandês segue uma crença baseada na harmonia entre seres humanos, vivos e não vivos. Seguindo o pensamento, o Budismo Tailandês crê em espíritos, como o espírito da água, do fogo, da terra e do ar, ou seja, os quatro elementos naturais do Budismo Theravada. Porém, o Budismo Tailandês vai adiante, se há espíritos nos elementos da natureza, há espíritos em todos os tipos de seres… chamado em tailandês de ‘pi’. Para um melhor entendimento, vou dar um exemplo: Em toda casa tailandesa Budista, haverá na frente um casinha, chamada de ‘casa dos espíritos’. Todo o dia de ‘monge’, que vai de acordo com a lua, eles fazem oferendas de alimentos, flores, doces e Fanta vermelha (sim Fanta vermelha, pois simboliza sangue). Estas oferendas são para que os espíritos fiquem felizes e não adentrem à casa, incomodando assim, a harmonia espiritual das pessoas que moram nela. Num outro artigo, posso falar mais sobre as Casas de Espírito na Tailândia, pois é muito interessante e muito mais complexo e filosófico do que parece.

Sendo assim, sabendo de cada particularidade dos três campos filosóficos, sim filosóficos, do Budismo Tailandês, agora, quando visitar a Tailândia, ninguém ficará impressionado se ver uma imagem de Shiva ou Ganesha, por exemplo, num templo budista tailandês. Ou ainda, não se impressionará de ver um monge praticando exorcismo, ou abençoando um rio ou uma árvore.
Essas três linhagens filosóficas fazem da Tailândia um país cheio de particularidades culturais, o qual leva à uma confusão mental daqueles que simplesmente passam por aqui alguns dias e saem falando aquilo que ‘entendem’, sem se aprofundar em todo o contexto histórico e filosófico desse povo ancestral que permanece tão vivo diante de tantas mudanças globais.

Até a próxima!
Sawasdee-Ka


Texto por Barbara Santos, especialista em cultura e tradição tailandesa, professora de Massagem Tradicional Tailandesa, Mestre em Filosofia e Religião pela Assumption University, Bangkok, onde reside desde 2014.

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4 pensamentos sobre “Entenda sobre o Budismo Tailandês

  1. Show Barbara, muito obrigado pelo esclarecimento pois nunca obtive informações suficientes para entender o porque da presença tão forte do Hinduísmo no Budismo Tailandês. Eu fui no Wat Bang Phra fazer um Sak Yant além de muitas imagens as tatuagens o Ganesh, Shiva. Eu não tinha entendido nada até hoje obrigado.

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  2. Barbara, muito legal a iniciativa de escrever sobre a Tailândia. Mas gostaria de fazer algumas observações. Buda nao falava Pali. Não se sabe qual língua ele falava.
    E a influência hindu e das religiões tradicionais também se fazem presente nos vizinhos: Myanmar, Camboja e Laos. Nesse sentido, essas influências não são tipicamente tailandesas.

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    • Oi Tiago, obrigada por visitar minha página e pelo seu comentário.
      As informações colocadas no post são baseadas em estudos acadêmicos. Nada do que escrevo é “achismo”. Sou Mestre em Filosofia e Religião pela Assumption University em Bangkok, e tive aula com monges Tailandeses, assim como dividi sala de aula com muitos deles. Então aqui na Tailândia, é ensinado que Buda falava Pali, uma língua sem alfabeto. Agora, se isso está certo ou errado, dai é outra história.
      Quanto à pontuação sobre a influência do Hinduísmo na Tailândia, o artigo é voltado especificamente à Tailândia e não aos países vizinhos. Em momento algum eu cito que é “tipicamente tailandesa”, eu menciono que as influências ficaram com características Tailandesas. Além disse, você sabia que todos esses países vizinhos que cita, parte deles, perntencia à Tailândia? O antigo território Sião? Então, sim, todos esses que cita, assim como a atual Tailândia foram fortemente influenciados pelo Hinduismo. 🙂

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