Tailândia – O porquê de uma dieta não vegetariana

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A primeira vez que vim à Tailândia, em 2012, uma das coisas que mais me chamou a atenção, foi a dieta tailandesa, o qual não é vegetariana. Sendo um país Budista em sua maioria (94% da população para ser mais específica), uma das expectativas que eu tinha era encontrar uma população vegetariana e principalmente monges vegetarianos, praticando um dos princípios ensinados por Buda, ahimsa. Mas não foi exatamente o que encontrei. A principal dieta tailandesa é baseada em carne suína e frango.

Ahimsa, para quem não tem familiaridade com o Budismo é o princípio da não-violência aos seres vivos, o que inclui todos os tipos de vida animal e, portanto, sacrificar animais para fins alimentares, teoricamente fere o princípio da não-violência. Ahimsa é levado muito a sério por exemplo pelo Hinduísmo, o qual a população Hindu pratica ativamente o vegetarianismo, respeitando a vida animal em geral.

O Brasil, por sua maioria cristã, pouco sabe sobre o Budismo, e aquilo que chega até os Brasileiros são principalmente princípios praticados pelo Budismo Mahayana ou Zen-Budismo, diferente do Budismo praticado na Tailândia, o Theravada.

No Budismo Mahayana por exemplo, muito budistas seguem rigorosamente ahimsa, e, portanto, em sua grande maioria são vegetarianos.

Não vou me aprofundar nas diferenças encontradas dentro do Budismo neste artigo, mas a cunho de informação geral, para se entender melhor, é como o Cristianismo, que tem diversas ramificações e interpretações da Bíblia, o mesmo caso é o Budismo. Diferentes formas de interpretação, diferentes ramificações, e aí se encontram o Budismo Mahayana, Zen-Budismo, Budismo Tibetano e Budismo Theravada.

Voltando ao tópico deste artigo e sabendo que o Budismo praticado na Tailândia é o Theravada, a interpretação que se tem dos ensinamentos deixados por Buda é muito particular, e talvez seja principalmente particular da Tailândia, pois o mesmo Budismo Theravada que é praticado no Sri Lanka ou Myanmar é diferente do que se segue na Tailândia. Mas este é um outro assunto que merece um artigo específico para as particularidades da crença Budista tailandesa.

Quanto à dieta alimentar dos monges, eles não são vegetarianos porque se alimentam dos donativos que recebem da população, portanto, eles não têm o direito de escolher a alimentação que irão seguir, desde que respeitem três condições: que não vejam, ouçam ou suspeitem que o animal foi sacrificado para sua própria alimentação. Ou seja, se é doado carne, e o monge não viu, não ouviu ou suspeitou que o ser vivo foi abatido para sua alimentação, o consumo é permitido. Nas escrituras budistas (Theravada), Buda informa à Jivaka Komarabhacca sobre os três casos que a carne pode e não pode ser consumida:

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Arquivo pessoal

“Jivaka, eu lhe digo três casos em que a carne não deve ser comida: quanto é visto, ouvido ou suspeitado [que o ser vivo foi abatido para o bikkhu]. Eu digo que a carne não deve ser comida nestes três casos. Digo que há três casos em que se pode comer carne: quando não se vê, não se ouve e não se suspeita [que o ser vivo foi abatido para bhikkhu], digo que a carne pode ser comida nestes três casos” (Jivaka Sutta: Sutta 55 p. 474). ‘Bhikkhu’ é uma palavra em Pali que quer dizer monge.

Todos os dias de manhã, por volta das 6:00 facilmente se veem monges caminhando pelas ruas segurando uma tigela, um recipiente redondo onde os alimentos doados são depositados pelos moradores da região.

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Similar é o entendimento para com a população budista em geral. Na Tailândia entende-se que se o indivíduo que consome carne não está envolvido no ato de sacrificar uma vida animal para fins alimentares, ele não estaria ferindo o princípio de ahimsa. Ou seja, o ato de comprar carne no mercado ou de terceiros não fere os ensinamentos de Buda.

Você pode pensar que essa atitude é um tanto quanto contraditória, pois mesmo não sacrificando com suas próprias mãos, o indivíduo estaria participando da ação por contribuir que uma vida animal fosse sacrificada para que ele(a) pudesse se alimentar, não é mesmo?

Ou ainda questionar, sobre àqueles que são budistas e sacrificam vida animal para obter fonte de renda. Essas pessoas estariam ferindo o princípio de ahimsa?

De acordo com a crença tailandesa, sim e não. E aí não serei eu a responder essas perguntas. Os Tailandeses por terem diversas crenças, e terem suas mentes muito abertas, responderiam apenas como a seguinte frase: OPTAMOS PELO CAMINHO DO MEIO, que justamente é o maior ensinamento de Buda. Sem extremismos, apenas seguindo o caminho do meio.

(Exemplos citados neste artigo são de autoria da autora, não citados em escrituras Budistas)


Barbara Santos é Brasileira, Mestre em Filosofia e Religião pela Assumption University em Bangkok, Tailândia. Reside na Tailândia desde 2014, e se dedica ao estudo da cultura e tradição tailandesa.

::: É permitida a reprodução de conteúdos deste site desde que seja citado a fonte e o autor.

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2 pensamentos sobre “Tailândia – O porquê de uma dieta não vegetariana

  1. Existe crescente preocupação com o vegetarianismo dentro do Budismo Theravada. No Ocidente ele já é praticado, por exemplo. Meu amigo monge , tailandês, já é vegetariano também.

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    • oi Tiago, obrigada por visitar! No artigo, eu falo especificamente da Tailândia e não o Budismo Theravada praticado no Ocidente. Quanto ao movimento para o vegetarianismo , sim é claro que ele existe, mas dentro do Budismo Theravada praticado aqui na Tailândia, os monges não podem negar a comida que são doadas, portanto, eles comem de tudo 😉
      Meu noivo foi monge e falo com integridade e conhecimento.
      Abraço fraterno!

      Curtir

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